Opinião: Vamos voltar a jogar, a rezar, ir aos teatros, mas não beber na paz

Esta vai especialmente para vocês meus irmãos, amantes das barracas como eu, que sempre partilhamos juntos aqueles momentos bons e maus quando o assunto é consumir álcool, quando conversávamos sem parar e nem sequer nos apercebíamos qual era o teor da conversa, porque começava e não acabava.

Lembram-se naquele dia que estivemos na barraca da tia “Elvira”, sentamos desde manhã e só saímos sei lá quando o sol raiou. Que não me deixem mentir, aliás, lembro-me eu como se fosse hoje que ali ninguém conseguia despedir-se, só víamos alguém tipo está a falar ao telefone e “zarpava”. Bons tempos, estamos com saudades, só que, me parece que não será tão já que voltaremos a esta nossa forma de viver. Ai que dor, dor de beber às escondidas porque senão, uns tipos vão chegar e arrancar-nos a bebida para um destino incerto.

Ouviram vocês todos que futebol vai voltar a ser jogado, mesmo sem tal público, mas os jornalistas, dirigentes, e amigos de aqueles que dirigem a modalidade, estarão nos campos. Os museus, teatros, ginásios já também reabriram e pelo menos os donos vão ganhar algum com o negócio.

Na ordem contrária, as nossas barracas, ali onde nos sentimos felizes, nem sequer constam da lista da actividade que reabriu. Isso é azar juro, como se diz na gíria “azar não é só óbito”.

Devemos ainda continuar a beber às escondidas mesmo? Será que é na barraca onde há tanto Covid-19 assim até o governo tem medo reabrir? Fizemos o quê nós senhor presidente? Há pessoas como eu e alguns meus amigos que não estão habituados a beber no restaurante, porque não anima mesmo. Não fomos educados assim, de que beber deve ser numa mesa “xique”, AC, etc.

Pensem na nossa malta também, porque pode ser pouco, mas conseguíamos deixar algum na barraca e isso ajudava na economia familiar das nossas tias.

Hoje, elas choram como nós. Sentem-se excluídas do processo de governação e tomada de decisão. Algumas votaram em si senhor presidente, acreditando que “Contigo daria certo”.

O tempo passa e a nossa esperança vai esvaziando. Quando olhamos nos lados, sentimo-nos arrepiados ao ver aqueles camiões das empresas a passarem nos bairros a vender bebida que depois, bebemo-la às escondidas. Ai que dor, que aperto de coração, mas acima de tudo que frustração de exclusão nós os barraqueiros sentimos neste país.

Somos também filhos desta pátria onde “pedra a pedra, construímos o novo dia”, onde “milhões de braços, é só uma força…”.

Prontos, vamos lá ter tempo e paciência, boa coisa pode estar próxima. Não Falei Nada.

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