Mahindra

Por: Gongolo R. Sinalo

Eram dezasseis hora. A gordura da nuvem insistia em sufocar o fogo que nos ilumina. Tem sido nessa hora de todos os dias em que a terra se entristece, pois o sol se despede. 
Muita gente acorria ainda ao mercado, mas tia Rosinha ultimamente faz compras no período de manhã. 
– Muitos aqui vendem e compram de manhã. 
– Com certeza! Nem mesmo lá na Zambézia! 
Tia tinha algo a me contar. Tive que aguardar ela acarretar água. 
– O sol já se opôs! Tia seja breve! 
Pôs a panela ao lume e serviu-me um banco. Sentei-me distante dela. Porém meus abriam atalhos, pois era tarde e tinha que estar em casa. Contou-me de uma coisa inusitada que aconteceu em Inhassunge, num povoado de nome M’barame. Uma senhora asfixiou, com recurso à máscara, seu “bebé do colo.”
– Chegado no destino, a mãe descobriu que a criança estava sem vida. Concluiu tia Rosa. 
Como mãe, senti-me chocada. 
– Triste. Se todos tivéssemos acesso à informação, quem sabe essa senhora evitaria o pior. 
– Concordo em parte. Ter acesso à informação às vezes é pior coisa. Tu vês, hora dizem isso, hora dizem aquilo. Deixam-nos confusos, sendo difícil hoje em dia confiar nesses meios que informam apenas o que lhes apetece. 
– Exagero tia. Devemos continuar a acreditar nos meios de informação, mas lamentar o facto de ainda existir pessoas sem informação. 
Dalí, despedi-me dela e ao sair do quintal vejo um menino a correr sem direcção. 
– Tia! Está aí a vir. 
– Quem está a vir? Eu perguntei. 
O menino não respondeu e continuou a correr. Eu não me detive. Avancei. Cinco passos mais adiante, vejo mais pessoas correndo. “O que está a se passar mesmo? O que estas pessoas estão fugindo?” Perguntei-me sem resposta. 
Perplexa, continuei caminhando até a casa. 
Dia seguinte, fui pedir fogo na casa da tia Rosa. Coincidi com a filha mais velha. Acabava de chegar. Vinha de Macuti onde vive casada com seus três filhos. Houve desentendimento com o esposo e como solução, ela preferiu voltar para casa dos pais com os seus três filhos a ficar com o marido que lhe maltratava e até ameaçava-lhe de morte. 
– Fizeste bem amiga. Quem carrega a cruz é quem sente o peso. Não adianta ficar lá para vir no caixote. 
– Nós as mulheres precisamos de ter autonomia. Ninguém deve encorajar-nos a enfrentar o insuportável só por causa de: casamento é assim mesmo. Devemos pôr um basta nisso. Acrescentou ela, meio nervosa. 
Antes de me despedir perguntei tia Rosa sobre o dia anterior. 
– Tia, ontem, à saída daqui vi muita gente correndo. Não soube decerto o que estava a acontecer. E um miúdo aconselhou-me a não seguir adiante, porque daquele lado vinha ele. 
– Ele quem? 
– O menino nem me revelou quem era esse ele. 
– Continuou a correr, atónito. Pensei que tia soubesse alguma coisa. Lá em casa, na Zambézia, as pessoas fogem carro de polícia. Não querem ser apanhadas a beber e ou sem máscaras. Mas, isso acontece na via pública. Nunca em becos. 
– Aqui também acontece. No Munhava, Goto e em muitos mercados, há presença policial até aos dentes. Mas, nunca entram aqui. Esses atalhos do jeito que estam apertados até confinam pessoas gordas. 
Enquanto conversávamos passou uma senhora que se atreveu a intrometer-se na conversa. Por sinal é conhecida da tia Rosa. 
– As pessoas aqui fogem mahindras de pessoas. 
Tia Rosa e eu ficamos indignadas, pois não percebíamos como alguém foge mainhdra num beco destes sem saída. 
– Sra para aí. Como assim fugir mahindra de pessoa? Mahindra é carro de polícia. E, carro de polícia não entra nesses labirintos. Indignou-se tia Rosa.
– Uwááá! Assim vocês não sabem. Devem ficar atentas, há muitas mahindras aqui de pessoas. Nós as conhecemos. Zumbis. Andam aqui mesmo. Fugimos porque não queremos morrer com eles. Concluiu a senhora. 
De tantas análises também tivemos uma ideia. Concluímos que aqui o nome mahindra é também aplicado para pessoas suspeitas de contrair o vírus, a COVID-19. Quando se deparam com essas pessoas todo mundo foge, não querendo mantiver contacto, pois são também mahindras.

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