Timóteo Ribeiro: Meu sofrimento

Saí para os estudos grávidos, de um bebé de todos os sexos e géneros. Uma grávida que durou cinco anos. Talvez estivesse a espera eu terminar com os estudos. Depois da defesa, o bebé já maduro bateu-me à porta. Desmaiei. Ressuscitei na sala de parto. 
Havia pessoas desconhecidas dando-me forças. Tive que rezar porque durante muito tempo perpassavam em mim rios de desmotivação. Há muita gente que se intromete e se posiciona em frente da mãe da primeira viagem, sorrindo ridicularizando que “vais sofrer. Ninguém irá apoiar-te em enxoval” mas, eu não dei ouvidos aos rios. Sabem porquê? Rios correm para único sentido desde que nasceram. Então, não se pode esperar bom conselho vindo de alguém que desde pequeno contempla o mundo numa única perspetiva.
Não é tempo de dar ouvidos às gaivotas que regressam do alto mar em vôos, que abatem os corações dos marinheiros. É preciso crer na terra em que sua planta do pé sobrecarrega do peso das vestes e cabelo importado. É preciso cobrir com mais de uma capulana, senão a criança pega febre. “São desses conselhos que constroem e fortalecem as mães de primeira viagem”. Cobri “Mavutho Anga” nome da minha criança que em português significa, Meu Sofrimento. Ainda quente, como se estivesse saindo do forno, cobri-lhe de “mucume” ofertado pela minha mãe, enquanto preparava-me para voltar à terra que me viu crescer, Milange. 
Foi em Milange onde comi Malange, lá no céu do monte Thumbine. E é malange esta fruta tropical de gosto afrodisíaco que mais tarde deu nome ao próprio distrito. Foi lá onde a primeira namorada eu beijei. A carta de amor escrevi. Quando não visse “muthume” para o encomendar, saía pessoalmente a entregar. Lembro-me como fosse ontem quando abordei a Loviness. Chamei. Nem sei porque tivera parado, porque foi um daqueles chamar sem saber o que falar. O peso dos meus bolsos dava a impressão que tivera esquecido o “caderninho de papos”. Contudo, aproximei-me dela. O corpo tremia e eu temia. Apalpei, só de Inglês ver no meu bolso traseiro o “caderninho de papos” não o tinha levado. Eu apenas disse-lhe que a admirava bastante. Dali as águas não mais rolarem. Assim que lhe chamaram a Rute sua amiga, eu aliviei-me. Fui correndo para a casa levar o meu salva-vidas, “caderninho de papos”. É lá onde eu vou, pois é  lá onde comecei a trabalhar, associei-me e convivi com o mundo que amanhã terá a ousadia de colocar nos braços o meu bebé, Mavutho Anga. 
Esta criança vai ser exibida em público, na Casa de Cultura de Milange. É lá onde acredito que decorrem actividades culturais e artísticas. É lá onde a gastronomia, os números de danças tradicionais acontecem. Quero acreditar que a Casa de Cultura de Milange é o edifício mais bonito e bem mais organizada infraestrutura no distrito e na província. Conta com caldeirões para um público brilhante, o pódio com cortinas de altura de arranha-céus. Um cenário interior de tirar o fôlego. É lá onde eu vou com meu Mavutho Anga desabrochar entre o tapete do pódio com o público de amigos de longa data, ansiando alojar minha criança em seus braços. 
Em um bom filho sempre volta a casa, iremos no cair do pano para a Piscina Municipal envolvermo-nos do ar puro onde vou partilhar com os presentes, em conversa descontraída, o projecto de engravidar Mavutho Anga no longínquo ano antes de mergulhar a caneta nas retas paralelas. Um evento em que cada um terá um Mavutho Anga em sua própria casa ou na memória. Como é bom nascer para todos!

 

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